(...)
O esforço que fazem as notícias e o som da sala
por romper com qualquer reação a impassividade do meu rosto.
O trabalho que tem o mundo em movimento
por quebrar meu foco difuso,
por forçar os meus olhos estáticos a qualquer movimento.
A força bruta que a rotina exerce sobre mim
por me deixar mais operacional nessa segunda fria,
mais profissional e menos...
parado e...
distante.
De uma lembrança em 'slow-motion'
à agonia de uma esperança dissolvida.
Do instante de um sinal 'comum' de alegria corrente
até o longo infinito de outro sinal nenhum,
voltei pra um lugar que já conhecia de outras 'quartas cinzas',
mas que já quase não lembrava o endereço...
Cai nova e suavemente em mim...
Como quem cai em si sem perceber...
Cai em mim por que na torrente desses dias
abdiquei de mim pra ser de alguém.
Pela rasa e platônica possibilidade ser mais que só...
Como uma estatua que mesmo depois de calcinada,
crê que pode voltar-se outra vez em barro mole...
Como tal estátua a qual me moldei e me calcinei,
cai do pedestal no qual 'vivia' e me...
Quebrei.
A força que o externo exerce pra ajuntar meus pedaços,
pra concertar minha carapaça dura e opaca de homen comum,
é insultada pelos meus olhos fixos...
Tão contrária à doçura com que o som do piano melancólico
daquele compositor francês entende e abraça minha...
Alma...
Meu momento imovel...
...meu nada tão solene e frágil.
Essa força é tão absoluta em sua futilidade necessária.
Tão cruel na sua peculiar ironia crônica e azeda,
que parece urrar como um leão contra minha insistência...
Estática.
Mas esse urro de vida, já quase não me afeta.
Essa força da rotina já quase não me move...
Essa paralisia já quase não é minha....
Já...
'Quase'
não.
(...)
I.V.
Soundtrack:
Point zero / Yann Tiersen (Tabarly)
Thursday, April 15, 2010
Monday, March 29, 2010
Autumn Day
(...)
Rising leaves
dancing with Wind
a spiritual earthly moment
lovely feelings...
Sensations of God
like some piece of the day
when we´ll be near…
[...breathing]
I´m the wind
I´m a leaf dancing with Him...
(...)
Rising leaves
dancing with Wind
a spiritual earthly moment
lovely feelings...
Sensations of God
like some piece of the day
when we´ll be near…
[...breathing]
I´m the wind
I´m a leaf dancing with Him...
(...)
Tuesday, November 3, 2009
A cidade e o caos
(...)
A moldura preta da janela fez da cidade ao fundo um quadro
de formas duras com cores sólidas e opacas
como se abstraindo do mundo apenas o caos
a fúria obliqua em suas quinas e sombras
Numa tarde, meus olhos tatearam o plano da janela
como se a cidade fosse plana naquela pintura
como se tudo se achatasse em uma só camada
como se o acidente de cores e quinas fosse acaso pintado
Quem pintaria tal caos se não meus olhos atrás do vidro?
Meus olhos imóveis que alcançam a distancia além do vidro
viram no vidro a cidade e a cidade pintada no vidro
Minha mente que recebia a visão já não a conhecia como antes
pintava um quadro como se fosse caos
entendia a imagem como se o vidro fosse espelho.
(...)
Isaque Veríssimo
A moldura preta da janela fez da cidade ao fundo um quadro
de formas duras com cores sólidas e opacas
como se abstraindo do mundo apenas o caos
a fúria obliqua em suas quinas e sombras
Numa tarde, meus olhos tatearam o plano da janela
como se a cidade fosse plana naquela pintura
como se tudo se achatasse em uma só camada
como se o acidente de cores e quinas fosse acaso pintado
Quem pintaria tal caos se não meus olhos atrás do vidro?
Meus olhos imóveis que alcançam a distancia além do vidro
viram no vidro a cidade e a cidade pintada no vidro
Minha mente que recebia a visão já não a conhecia como antes
pintava um quadro como se fosse caos
entendia a imagem como se o vidro fosse espelho.
(...)
Isaque Veríssimo
Aniversário
(...)
“Tic-tac-tic-tac” Molas, pêndulos e a fantástica noção do tempo além de sombras e sois.
A cronologia que inventamos parece que se voltou contra nós, tentamos domar o tempo que era livre, que selvagem corria pelos cantos e se escondia atrás de sorrisos, que nos libertava de compreendê-lo e que por fim, nos domou como resposta.
Hoje vivemos em função dele. O sol nascente e o poente que anunciavam o começo e o fim do dia, hoje são cinco e meia da manhã e seis da tarde. Hoje é o “bip-bip” do despertador e a sirene de saída...
...Dez pra seis, meia noite e meia, vinte e cinco anos, vinte quatro primaveras, meia vida contada, um quarto de século e uma história. Uma fração sentida e percebida de uma era.
O tempo que tanto confundiu sábios e inspirou poetas, hoje aflige que se da conta dele.
E se nunca tivéssemos matematisado o tempo?, se nossa cronologia jamais tivesse existido e a conta das primaveras que vivemos fosse descontada por distração?
Que idade teríamos? Como uma geração que cresse sem perceber que envelhece, sem ver fotos, apenas se dando conta das novas dimensões e situações. Se talvez nunca houvéssemos tentado domar o tempo, ele não se mostraria e nem nos afligiria. Nem seria sexta feira, nem seria dezembro de dois mil e tantas e nem perceberíamos a areia por entre os dedos correr tão depressa.
A sensação é que o “tic-tac” do relógio alimenta o monstro debaixo da cama que cresse forte no passo que crêssemos. E não a tempo de encarar, nem há tempo de fugir.
O senhor da razão, o melhor remédio, o vilão assassino de sonhos, o anel precioso perdido na estrada, as marcas nas pedras, as voltas em volta do sol e volta completa do ponteiro menor. O tempo que passa, passa, e sempre vai passar, cronometrem os relógios ou não, disfarcem os sorrisos ou não, nos cabe passar com ele no passo da vida.
Do mais, tudo passa.
(...)
Isaque Veríssimo
“Tic-tac-tic-tac” Molas, pêndulos e a fantástica noção do tempo além de sombras e sois.
A cronologia que inventamos parece que se voltou contra nós, tentamos domar o tempo que era livre, que selvagem corria pelos cantos e se escondia atrás de sorrisos, que nos libertava de compreendê-lo e que por fim, nos domou como resposta.
Hoje vivemos em função dele. O sol nascente e o poente que anunciavam o começo e o fim do dia, hoje são cinco e meia da manhã e seis da tarde. Hoje é o “bip-bip” do despertador e a sirene de saída...
...Dez pra seis, meia noite e meia, vinte e cinco anos, vinte quatro primaveras, meia vida contada, um quarto de século e uma história. Uma fração sentida e percebida de uma era.
O tempo que tanto confundiu sábios e inspirou poetas, hoje aflige que se da conta dele.
E se nunca tivéssemos matematisado o tempo?, se nossa cronologia jamais tivesse existido e a conta das primaveras que vivemos fosse descontada por distração?
Que idade teríamos? Como uma geração que cresse sem perceber que envelhece, sem ver fotos, apenas se dando conta das novas dimensões e situações. Se talvez nunca houvéssemos tentado domar o tempo, ele não se mostraria e nem nos afligiria. Nem seria sexta feira, nem seria dezembro de dois mil e tantas e nem perceberíamos a areia por entre os dedos correr tão depressa.
A sensação é que o “tic-tac” do relógio alimenta o monstro debaixo da cama que cresse forte no passo que crêssemos. E não a tempo de encarar, nem há tempo de fugir.
O senhor da razão, o melhor remédio, o vilão assassino de sonhos, o anel precioso perdido na estrada, as marcas nas pedras, as voltas em volta do sol e volta completa do ponteiro menor. O tempo que passa, passa, e sempre vai passar, cronometrem os relógios ou não, disfarcem os sorrisos ou não, nos cabe passar com ele no passo da vida.
Do mais, tudo passa.
(...)
Isaque Veríssimo
Monday, September 7, 2009
Clima!
(...)
O dia em cinza denso!
As nuvens carregadas
de água, medo e paz!
Quebram certeza incerta do firmamento visível
Lembram quase que sem querer
que o céu tão seguramente azul,
é só ilusão de ótica
que nem mesmo o sol é amarelo
muito menos que a noite é de fato preta.
(...)
Isaque Veríssimo
O dia em cinza denso!
As nuvens carregadas
de água, medo e paz!
Quebram certeza incerta do firmamento visível
Lembram quase que sem querer
que o céu tão seguramente azul,
é só ilusão de ótica
que nem mesmo o sol é amarelo
muito menos que a noite é de fato preta.
(...)
Isaque Veríssimo
Tuesday, August 25, 2009
Domingo de Chuva
(...)
Hoje foi um domingo. Dia de família, de frio e de igreja... Ao contrário dos outros domingos, sai numa caminhada solitária e molhada de chuva pra conversar com Deus estrada a fora... Procurei como quis e por querer, mas não encontrei paz, nem palavras...
Nem som, nem luzes, nem nada do que se parecia novo. Só o meu corpo e um monte de mim...
Além uma forte auto-percepção inconveniente, existia uma espécie de vazio. Não um vazio emocional, como uma expressão da alma por se estar perdido, mas um vazio sensorial, como se Deus estivesse ocupado, ou escondido atrás do céu nublado cinza... Nada além da solidão e insegurança.
Num turbilhão de pensamentos desorganizados, minha oração tentava romper a barreira do cansaço mental e domar a desatenção, se mostrando mais necessária que de fato desejada... É como se não houvesse mais nada além de um rebuscar desanimado do meu coração por experiências passadas que justificassem aquela solidão voluntária. Num monólogo frio, numa busca individual e já com a fé fraca, por algo que só a fé pode alcançar...
Qual é causa desse efeito?
Mais uma vez aquele orgulho besta e humano, quase me levou a acreditar que o silencio de Deus poderia ser culpa minha, como se fosse eu capaz de deixá-lo ‘de mal’ comigo...
Eu não tenho subsidio teórico e nem toda a filosofia pensada em todos os universos hipotéticos cabíveis na minha consciência saberiam explicar o porquê dessa vez eu não senti a Deus, nem me senti à-vontade sozinho... Eu não vivi o que por um momento dedicado, eu quis viver em absoluto.Hoje foi um domingo. Dia de família, de frio e de igreja... Ao contrário dos outros domingos, sai numa caminhada solitária e molhada de chuva pra conversar com Deus estrada a fora... Procurei como quis e por querer, mas não encontrei paz, nem palavras...
Nem som, nem luzes, nem nada do que se parecia novo. Só o meu corpo e um monte de mim...
Além uma forte auto-percepção inconveniente, existia uma espécie de vazio. Não um vazio emocional, como uma expressão da alma por se estar perdido, mas um vazio sensorial, como se Deus estivesse ocupado, ou escondido atrás do céu nublado cinza... Nada além da solidão e insegurança.
Num turbilhão de pensamentos desorganizados, minha oração tentava romper a barreira do cansaço mental e domar a desatenção, se mostrando mais necessária que de fato desejada... É como se não houvesse mais nada além de um rebuscar desanimado do meu coração por experiências passadas que justificassem aquela solidão voluntária. Num monólogo frio, numa busca individual e já com a fé fraca, por algo que só a fé pode alcançar...
Qual é causa desse efeito?
Mais uma vez aquele orgulho besta e humano, quase me levou a acreditar que o silencio de Deus poderia ser culpa minha, como se fosse eu capaz de deixá-lo ‘de mal’ comigo...
Talvez a circunstancia, talvez o momento, talvez a dureza do meu coração, talvez minha falta de perseverança, talvez o excesso de ‘talvez’... Eu não sei o que silenciou a voz de Deus no meu coração, na minha mente hoje, mas minha fé fraca, mesmo que apoiada apenas na esperança, se manteve de pé, com fé por receber de mim mais que apenas a sobra da rotina, mais que apenas um domingo solitário e uma canção de louvor emotivo, mais que um bombardeio de nada...
Enquanto fugia de mim, pensava e buscava dentro da minha mente, dentro do meu espírito, algum lugar que a razão ainda não corrompeu com sua linguagem, com sua necessidade de compreensão analítica, que estivesse sensível a perceber no pouco, a imensidão de Deus... E perceber mais do o que o entendimento entenderia, mais que apenas o que pode ser compreendido, e assim, pudesse me devolver a incapacidade de subsistir, a sensibilidade que mora na doce loucura de uma oração firme.
Eu preciso que minha mente já não tenha mais bengalas racionais, nem ciência demais. Sem o orgulho de querer pagar pelo que é de graça... Eu preciso confiar mais no que já recebi e talvez pensar menos, para que minha alma esteja apta a receber o carinho do vento impetuoso, receber outra vez a paz devida, além entendimento...
Hoje eu apenas me vi sozinho, tão longe de Deus quanto era capaz de me sentir, tão fraco e refém de mim... Mesmo quando não escutava nada além da minha voz rompendo o silencio com uma canção ‘deep’ de entrega, desafinada e esboçada a duras penas, o mesmo senso racional que me atormentava, também me falava sobre a graça de Deus, quando me fazia perceber o milagre de estar ali, andando e respirando sozinho, de estar bem e tão miraculosamente normal... O mesmo senso racional que vetou os meus sentidos, me deixou apenas coma minha sinceridade ácida, que no tocante a minha oração me permitiu dizer a Deus que a partir daquele momento, já não tinha mais nada a oferecer, nem paz, nem louvor, nem gratidão ou desabafo, nem intercessões ou pedidos... Nada além da minha solidão molhada, sincera e silenciosa de palavras...
Mesmo sem senti-lo, eu sei que Ele recebeu...
(...)
Isaque Veríssimo, agosto de 2009
Enquanto fugia de mim, pensava e buscava dentro da minha mente, dentro do meu espírito, algum lugar que a razão ainda não corrompeu com sua linguagem, com sua necessidade de compreensão analítica, que estivesse sensível a perceber no pouco, a imensidão de Deus... E perceber mais do o que o entendimento entenderia, mais que apenas o que pode ser compreendido, e assim, pudesse me devolver a incapacidade de subsistir, a sensibilidade que mora na doce loucura de uma oração firme.
Eu preciso que minha mente já não tenha mais bengalas racionais, nem ciência demais. Sem o orgulho de querer pagar pelo que é de graça... Eu preciso confiar mais no que já recebi e talvez pensar menos, para que minha alma esteja apta a receber o carinho do vento impetuoso, receber outra vez a paz devida, além entendimento...
Hoje eu apenas me vi sozinho, tão longe de Deus quanto era capaz de me sentir, tão fraco e refém de mim... Mesmo quando não escutava nada além da minha voz rompendo o silencio com uma canção ‘deep’ de entrega, desafinada e esboçada a duras penas, o mesmo senso racional que me atormentava, também me falava sobre a graça de Deus, quando me fazia perceber o milagre de estar ali, andando e respirando sozinho, de estar bem e tão miraculosamente normal... O mesmo senso racional que vetou os meus sentidos, me deixou apenas coma minha sinceridade ácida, que no tocante a minha oração me permitiu dizer a Deus que a partir daquele momento, já não tinha mais nada a oferecer, nem paz, nem louvor, nem gratidão ou desabafo, nem intercessões ou pedidos... Nada além da minha solidão molhada, sincera e silenciosa de palavras...
Mesmo sem senti-lo, eu sei que Ele recebeu...
(...)
Isaque Veríssimo, agosto de 2009
Monday, August 24, 2009
[IN]
(...)
Não leio muito, nem tenho um bom repertório cultural, mas num trecho que li de Clarisse Lispector, ela me disse que o “não entender é mais vasto que o entender”... Eu havia entendido aquilo e achado algo bacana, muito profundo e tal, mas não com vastidão prática do não entender, apenas havia entendido. E ponto.
Hoje, por circunstância de estar só, e pensativo, acabei por entrar num pseudo-transe, num estado "IN"! Onde vetei as saídas do meu aparelho social. O "Out-put" ja não operava normalmente e eu não sentia culpa nem vontade de devolver ao mundo o que absorvia. Hoje, por um breve momento eu só recebi... Como se não existissem metáforas adequadas pra tanger o que eu sentia, como se nem todas as palavras ambíguas e diretas pudessem descrever... Não foi nada além, nada complexo, nem tampouco descritível. Num pedaço de rotina corrente, quebrei o movimento do meu corpo apressado e o embalo dos meus passos no caminho de volta ao escritório, parei numa esquina de uma praça e me limitei a observar, a receber tão somente.
Recebi a satisfeita solidão de um homem simples na praça, jogando ‘cebolitos’ as pombas, o amor e preocupação da mãe que levava o filho pela mão no cruzamento. O frio, as folhas caídas, o vento... O movimento de um mundo invisível e singular demais pra ser percebido na minha caminhada rotineira até o restaurante onde diariamente engulo qualquer comida.
Hoje eu só recebi as conversas alheias e engraçadas, mas não ri, nem agi, nem interagi. Meus olhos cerrados e fixos na pureza do tempo, minha mente processado tudo o que é não-pensável dentro do meu pensamento. Não evoquei em mim dúvidas, nem conflitos, eu apenas sinestesiei a solidão do homem das pombas como se ela fosse minha, a beleza da mãe com o filho como se pudesse gratificar meus olhos por dar a minha alma e ao meu corpo aquelas sensações. Nesses momentos é como se eu pudesse desaprender a falar, desverbalizar tudo que ebule dentro da minha alma, e é forte demais pra caber no corpo, semântico demais pra ser pensado, como que de fato desativando esse aparelho automático, esse ´alguém´ que eu me fiz, tentando pensar sem palavras.
Certa vez, li de um tal Fernando Pessoa, que "quem pensa é doente dos olhos..." e o hoje eu só queria agradecer meus olhos, agradecer a Deus por eles... Além do que o Pessoa pense, entendi que em certos momentos, pensar, com a intenção de deter o controle das sensações, e da alma, é estar doente de todos os sentidos! É talvez cauterizar a sensibilidade. Hoje eu não quis entender o que são as sensações, nem de onde elas vem... eu quis apenas tê-las em mim... Como quem olha pro mundo sem tentar entende-lo, como quem sente o frio sem procurar em se aquecer, como quem se deita nos braços da solidão pra falar com Deus sem pensar em português...
Hoje, dei férias pra minha razão e fui só sentidos... Fui o barulho do vento, o sabor de boca depois do almoço engolido. Fui as pombas, a confiança do filho e a preocupação sorrida da mãe, o pensamento perdido da secretaria atrasada, o cigarro rebelde do menino recém-futuro-frustrado. Fui a roupa rota e o orgulho rasgado do mendigo, a duvida do guardinha de carros, a simpatia prática da balconista, a educação não correspondida do funcionário quieto, a vaidade perseverante das rugas rosas de blush da senhora enfeitada. Fui um pouco do mundo, num instante tão breve quanto uma volta do almoço pro trabalho.
Era como se já não quisesse entender o que Deus pensava, mas como ele pensa! Eu já descrevi tantas coisas em orações bem elaboradas usando todo o poder da minha lexicalidade xucra, tentado abstrair em linguagem o meu mundo ideal pra um nível prático e entregar pensamentos mastigadinhos e fáceis pra quem já os conhecia antes que existissem... Céus! Que estupidez a minha! É como se eu duvidasse da capacidade do senhor da criação de conhecer a própria criação, de me conhecer além do meu conhecimento, como que querendo entender as coisas, julgá-las pelo meu crivo e pensar que isso era o suficiente...
Em que língua Deus pensa?
Hoje, me rendi ao não entender e entendi que as vezes o entendimento, não tem por necessidade, ser descrito, quiçá entendido. Estar ´in tune´ com Deus, é muitas vezes estar afinado com a criação, ser a criação, e essa sintonia reside na simplicidade do entender não pensando, como uma criança que sabe que esta segura no colo da mãe, sem sequer saber pensar. Ela não sabe nenhum sinônimo de -segurança-, ou em que classe gramatical está a palavra -confiança-, nem como se analisa sintaticamente o termo –amor incondicional-. Ela sabe apenas que está. Como está.
Hoje pude sentir a simplicidade serena de Deus com todos os meus sentidos. Como se nos meus olhos tateando as raízes fortes e brutas de uma árvore velha e percebendo a delicadeza segura com que suas folhas saboreavam o vento frio, Ele me dissesse algo como: “Está tudo bem...”. Quando pude carregar os litros e litros de água suspensos no mesmo ar que respirava, e entender o Seu “Eu estou no controle...”. Quando senti o peso do planeta reagindo contra os meus pés parados naquela esquina e imaginei que nada, além de ar, se interpõe entre meu corpo e as estrelas, e nisso ver Seu sorriso engraçadinho como quem diz com uma humildade descabida um “Sim! Eu sou grande mesmo...” Quando senti o suave carinho do vento nos meus cabelos e me ver livre, como se Ele me desse a entender um “Eu te fiz assim, livre como vento”.
Foi apenas sentido todo o desespero contido por correr atrás do vento, de todos os que passavam, olhando pra tudo e pra nada, sem notar o milagre que vivem e o contraste da alegria inocente e intocável com que um menino pobre esboçava uns passos de corrida atraz da mãe e do irmão menor, que eu percebi a expressão risonha e feliz de alguém que se precisasse dizer algo, diria: “Agora você já consegue me ‘ver’ mais!".
Durante meia hora de rotina quebrada, eu pude entender que o amor e a presença de Deus são maiores que o mundo e muito mais simples que qualquer entender. E isso já não cabe em mim, nem no esforço por tentar escrever esse texto...
Enquanto a rotina não me atropelou novamente no segundo período, com a voz urgente preocupada do meu chefe pedindo novos layouts, enquanto os risinhos convenientes e comentários fúteis não acionaram o meu módulo "papo de elevador", me obrigando a consertar aquele meu aparelho social quebrado, e trazer a tona aquele ‘eu’ que o mundo criou pra se relacionar, eu pude apenas parar, não entender e sentir...
Tão simples e somente, sentir...
(...)
Isaque Veríssimo, Agosto de 2009
Não leio muito, nem tenho um bom repertório cultural, mas num trecho que li de Clarisse Lispector, ela me disse que o “não entender é mais vasto que o entender”... Eu havia entendido aquilo e achado algo bacana, muito profundo e tal, mas não com vastidão prática do não entender, apenas havia entendido. E ponto.
Hoje, por circunstância de estar só, e pensativo, acabei por entrar num pseudo-transe, num estado "IN"! Onde vetei as saídas do meu aparelho social. O "Out-put" ja não operava normalmente e eu não sentia culpa nem vontade de devolver ao mundo o que absorvia. Hoje, por um breve momento eu só recebi... Como se não existissem metáforas adequadas pra tanger o que eu sentia, como se nem todas as palavras ambíguas e diretas pudessem descrever... Não foi nada além, nada complexo, nem tampouco descritível. Num pedaço de rotina corrente, quebrei o movimento do meu corpo apressado e o embalo dos meus passos no caminho de volta ao escritório, parei numa esquina de uma praça e me limitei a observar, a receber tão somente.
Recebi a satisfeita solidão de um homem simples na praça, jogando ‘cebolitos’ as pombas, o amor e preocupação da mãe que levava o filho pela mão no cruzamento. O frio, as folhas caídas, o vento... O movimento de um mundo invisível e singular demais pra ser percebido na minha caminhada rotineira até o restaurante onde diariamente engulo qualquer comida.
Hoje eu só recebi as conversas alheias e engraçadas, mas não ri, nem agi, nem interagi. Meus olhos cerrados e fixos na pureza do tempo, minha mente processado tudo o que é não-pensável dentro do meu pensamento. Não evoquei em mim dúvidas, nem conflitos, eu apenas sinestesiei a solidão do homem das pombas como se ela fosse minha, a beleza da mãe com o filho como se pudesse gratificar meus olhos por dar a minha alma e ao meu corpo aquelas sensações. Nesses momentos é como se eu pudesse desaprender a falar, desverbalizar tudo que ebule dentro da minha alma, e é forte demais pra caber no corpo, semântico demais pra ser pensado, como que de fato desativando esse aparelho automático, esse ´alguém´ que eu me fiz, tentando pensar sem palavras.
Certa vez, li de um tal Fernando Pessoa, que "quem pensa é doente dos olhos..." e o hoje eu só queria agradecer meus olhos, agradecer a Deus por eles... Além do que o Pessoa pense, entendi que em certos momentos, pensar, com a intenção de deter o controle das sensações, e da alma, é estar doente de todos os sentidos! É talvez cauterizar a sensibilidade. Hoje eu não quis entender o que são as sensações, nem de onde elas vem... eu quis apenas tê-las em mim... Como quem olha pro mundo sem tentar entende-lo, como quem sente o frio sem procurar em se aquecer, como quem se deita nos braços da solidão pra falar com Deus sem pensar em português...
Hoje, dei férias pra minha razão e fui só sentidos... Fui o barulho do vento, o sabor de boca depois do almoço engolido. Fui as pombas, a confiança do filho e a preocupação sorrida da mãe, o pensamento perdido da secretaria atrasada, o cigarro rebelde do menino recém-futuro-frustrado. Fui a roupa rota e o orgulho rasgado do mendigo, a duvida do guardinha de carros, a simpatia prática da balconista, a educação não correspondida do funcionário quieto, a vaidade perseverante das rugas rosas de blush da senhora enfeitada. Fui um pouco do mundo, num instante tão breve quanto uma volta do almoço pro trabalho.
Era como se já não quisesse entender o que Deus pensava, mas como ele pensa! Eu já descrevi tantas coisas em orações bem elaboradas usando todo o poder da minha lexicalidade xucra, tentado abstrair em linguagem o meu mundo ideal pra um nível prático e entregar pensamentos mastigadinhos e fáceis pra quem já os conhecia antes que existissem... Céus! Que estupidez a minha! É como se eu duvidasse da capacidade do senhor da criação de conhecer a própria criação, de me conhecer além do meu conhecimento, como que querendo entender as coisas, julgá-las pelo meu crivo e pensar que isso era o suficiente...
Em que língua Deus pensa?
Hoje, me rendi ao não entender e entendi que as vezes o entendimento, não tem por necessidade, ser descrito, quiçá entendido. Estar ´in tune´ com Deus, é muitas vezes estar afinado com a criação, ser a criação, e essa sintonia reside na simplicidade do entender não pensando, como uma criança que sabe que esta segura no colo da mãe, sem sequer saber pensar. Ela não sabe nenhum sinônimo de -segurança-, ou em que classe gramatical está a palavra -confiança-, nem como se analisa sintaticamente o termo –amor incondicional-. Ela sabe apenas que está. Como está.
Hoje pude sentir a simplicidade serena de Deus com todos os meus sentidos. Como se nos meus olhos tateando as raízes fortes e brutas de uma árvore velha e percebendo a delicadeza segura com que suas folhas saboreavam o vento frio, Ele me dissesse algo como: “Está tudo bem...”. Quando pude carregar os litros e litros de água suspensos no mesmo ar que respirava, e entender o Seu “Eu estou no controle...”. Quando senti o peso do planeta reagindo contra os meus pés parados naquela esquina e imaginei que nada, além de ar, se interpõe entre meu corpo e as estrelas, e nisso ver Seu sorriso engraçadinho como quem diz com uma humildade descabida um “Sim! Eu sou grande mesmo...” Quando senti o suave carinho do vento nos meus cabelos e me ver livre, como se Ele me desse a entender um “Eu te fiz assim, livre como vento”.
Foi apenas sentido todo o desespero contido por correr atrás do vento, de todos os que passavam, olhando pra tudo e pra nada, sem notar o milagre que vivem e o contraste da alegria inocente e intocável com que um menino pobre esboçava uns passos de corrida atraz da mãe e do irmão menor, que eu percebi a expressão risonha e feliz de alguém que se precisasse dizer algo, diria: “Agora você já consegue me ‘ver’ mais!".
Durante meia hora de rotina quebrada, eu pude entender que o amor e a presença de Deus são maiores que o mundo e muito mais simples que qualquer entender. E isso já não cabe em mim, nem no esforço por tentar escrever esse texto...
Enquanto a rotina não me atropelou novamente no segundo período, com a voz urgente preocupada do meu chefe pedindo novos layouts, enquanto os risinhos convenientes e comentários fúteis não acionaram o meu módulo "papo de elevador", me obrigando a consertar aquele meu aparelho social quebrado, e trazer a tona aquele ‘eu’ que o mundo criou pra se relacionar, eu pude apenas parar, não entender e sentir...
Tão simples e somente, sentir...
(...)
Isaque Veríssimo, Agosto de 2009
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