O gengibre engarrafado curte na cachaça tanto quanto a cachaça curte o gengibre.
Um é o contexto etílico, liquido, engarrafado em si mesmo e concentrado tanto quanto pode. Ardido a não poder ser mais.
O outro é o fato isolado, elemento do sabor, o objeto de depuro, signo e significado.
A cachaça entra agressiva gengibre adentro roubando dele sua própria identidade. Se apropria do tal como uma ladra vazia de ser significante, fazendo jus a suas propriedades altamente depurativas…
O gengibre curtindo na cachaça, não só se entrega, se dissolve e irreparavelmente se perde no meio liquido, como também absorve o meio num injusto escambo essencial.
Assim fica a cachaça meio-amarga de gengibre e gengibre meio-ardido de cachaça.
Gengibre é gengibre e cachaça é cachaça até quase não.
Pensar solidão como contexto é equivoco! Solidão não é cachaça...
...solidão é gengibre, é fato isolado, elemento de dissabor, objeto puro, significante.
A solidão é minha, a cachaça sou eu!
Tão liquido e concentrado quanto posso, curto meu gengibre depurando dele tudo quanto e onde meu humor ardido avança solidão adentro.
Curto a solidão engarrafada dentro e mim enquanto ela curte em mim absorvendo em si um tanto do que sou…
Então, ficamos assim; eu um meio-amargo de solidão; solidão meio-ardida de mim…
Solidão é solidão, eu sou o que sou, até quase não…
Isaque Veríssimo